27 de mai de 2015

(Alerta textão) Tutorial: A respeito dos bicos de pena.


Olá visitantes!

Dia atrás, o desenhista Mateus Cena sugeriu que eu mostrasse  um pouco do meu material de trabalho ( leia-se bicos de penas) aqui no blogue.
Este espaço é bem carente de textos mesmo...
 Então  aqui está um sobre  os meus bicos de pena e tintas nanquim. ;)


Monastério de Nea Moni, por Rosali Colares.







Para quem não conhece, os bicos de pena são instrumentos para caligrafia, desenho e arte-final.
 São vendidos separadamente ou com suporte em forma de  cabo. 
As penas produzem  o chamado “efeito fino-grosso”, isso quer dizer que ela faz linhas diferentes de acordo com a pressão que você exerce na ponta. Para criar  texturas e efeito de relevo no desenho faz-se hachuras, linhas, tracejados, pontilhados... do mesmo jeito que se faz com lápis grafite.
Há diversos modelos de penas, mas você pode, de acordo com o objetivo final, escolher entre as pequenas, médias e grandes.  Penas pequenas como as maru são indicadas  para detalhes minuciosos e linhas finas, por exemplo. Se você usar uma pena com ponta fina para fazer linhas grossa, não vai dar muito certo: fazer muita pressão fará com que a ponta entorte ou quebre.

As penas mais populares são as de metal, mas existem também  no mercado as  de bambu e ainda há quem use pena de ganso (e daí vem o nome).
 Há quem diga que bambu e pena de ganso são até melhores que as de metal, mas eu ainda não testei. 

 Um pouco de história e uma foto de viagem.


Antigamente (bote aí mais de 2.000 anos)  usava-se penas de ganso  com a ponta talhada,  e assim se escrevia, mergulhando essa ponta em tinta.
Pelas minhas fontes, há relatos  do uso desde o Antigo Egito e também do uso de pontas de cobre no período romano, mas essas pontas perderam a popularidade na Idade Média e foram substituídas de vez por penas de ave. Acontece que as penas de ganso tem maior maleabilidade do que o cobre, possibilitando um efeito fino-grosso melhor -e mais rápido.  
Na Idade Média os  monges usavam as penas de ganso talhadas na ponta para a escrita de livros e iluminuras nos monastérios. Algo assim: 

Fonte: http://bibliotecadomosteiro.com.br/o-canon-de-muratori/

Lí também, mas tenho minhas dúvidas,  que as penas de metal como conhecemos hoje surgiram no mesmo tempo em que a litografia se tornou fundamental para a impressão de livros. Precisava-se de um material resistente  e ao mesmo maleável para desenhar sob as pedras litográficas, e assim surgiu as penas de metal modernas. Essa  adaptação atual é atribuída ao criador da litografia, Alois Senefelder. Porém não achei outras referências que confirmem a sua autoria ao que conhecemos hoje... Se alguém tiver uma referência, me passe a dica nos comentários.

Um exemplo de bico de pena usada em litografia, obra de  Gustave Doré (1832-1883). #todoschora.



  
Essa foto é de minha autoria, e eu fiz  ela no ano passado quando estive  na Turquia. Outras fotos minhas estão aqui.


Esse lugar da foto é um antigo cemitério e também uma igreja grego-ortodoxa no centro de Estambul. Algo em torno de 1800 e pouco, período Otomano. 
Sem mais  espaço no lugar, que é cercado por muros de pedra e pinheiros, tiraram todas as lápides dos túmulos mais antigos e cobriram o chão, que dá acesso ao interior da igreja ( não confundir com mesquita).
 Antigamente gravavam alguma representação  da profissão do enterrado. 
Todas as lápides de mármore  no chão possuem alto-relevo de balanças, camelos, espelhos – pentes- tesouras,  esquadros, e outras coisas mais. Estão alí comerciantes, barbeiros, arquitetos, e sei la... 
Não sei dizer exatamente o que cada um quer dizer, óbvio que sou leiga. 
Então encontrei essa lápide bem interessante. Está preservada porque fica num canto afastado, onde as pessoas não caminham sobre ela.
 Procurei se tinha outra igual, não tinha.
Como se vê é uma  mão segurando um bico de pena (de ave) e um tinteiro.  Indica que em vida essa pessoa trabalhava com penas e tintas. Talvez fosse alguém das letras, um desenhista, artista, não se sabe. 
Mas fiquei feliz de encontrar essa lápide. É estranho pensar que eu fui para tão longe, num lugar onde eu nunca imaginei estar, e estando lá, vejo isso: esquecido e ignorado num canto. Depois desse encontro acabou meu clima. Fiquei nostálgica e meio triste, me lembrando do filme "Nós que aqui estamos, por Vós esperamos", uahuah. 

E agora vamos ao meu material

A maioria dos meus bicos de pena são para caligrafia. Não conheço nada sobre essa parte, então fico devendo sobre  o que cada uma serve.

Gosto mais de penas finas, conhecidas como 'pena-mosquito' no Brasil, 'pena maru' no Japão, e 'bico de corvo' nos Estados Unidos. São essas menores no canto esquerdo. As que tem a ponta mais larga são para linha e escrita, mas eu não me adaptei a elas. Todas foram compradas na Grécia em 2013, não foi muito fácil acha-las mas lá materiais de arte são (muito) mais baratos - então aproveitei a chance. Gostaria de falar sobre coisas que comprei e ví por lá, mas as vezes fico com impressão que vou pagar de arrogante, coisa que eu não sou- daí desisto.
Marcas: D Leonardt, Ark, Brause & Cο., Irinoid, D L & C. Todas inglesas. pois é a Inglaterra quem tem uma longa tradição na fabricação desse material. 
Meus primeiros bicos de pena, lá em 2003, eram bem comuns, não tinham uma marca que me lembre, mas foram igualmente amados e tratados com carinho por mim.
 Marca é só uma referência, quem consegue um bom resultado é você e sua prática.
Não sou do tipo que credita  qualidade a material caro... Acho que isso não é determinante. Mas se você puder investir em um material bom, invista! Só não se deslumbre pensando que ele faz milagres.

As minhas tintas nanquim são essas no momento. No início usei Acrilex, e aprendi com isso o básico, mas não é uma tinta profissional, e se você usá-la num trabalho para venda, seu comprador vai ficar "de cara" com você pois Acrilex desbota com o tempo. Depois usei Trident ( grande causadora de acidentes), uma tinta chinesa amarela que e não me lembro o nome... e agora tenho essas. 

A primeira é uma tinta nanquim própria para caligrafia, que eles vendem na Grécia com o nome de Siniki Melani. É da marca Winsor & Newton, pote de vidro, 250 ml. Uso ela para todos os meus trabalhos há 2 anos, e tá longe de chegar na metade do vidro. Essa tinta vale muito a pena investir pela durabilidade, porque ela é excelente para técnica mista (não mancha depois de seca) e tem uma boa cobertura. A segunda é um nanquim escolar que eu comprei em Nicosia, Chipre. É a Darwi Ink, e não é muito boa. Uso ela quando preciso cobrir grandes áreas com pincel, mas ela é meio transparente e tem um cheiro muito forte.  A terceira com esse bico dosador, é da marca Le Franc & Bourgeois é a Nan-king Encre de Chine. Seria um nanquim mais denso, próprio para ser diluído em água.  Mal uso pois tenho dó de desperdiçar

E por fim esse nanquim em barra, que eu ainda não usei vai ficar pra bonito.


Vista geral: Nanquins, penas, cabos para suporte, e a caixinha de madeira onde guardo as plumillas


Recomendações de como cuidar dos bicos de pena e o que não fazer.

* Não guarde as penas em estojos, lugares apertados, e nem com a ponta para baixo. 

* Eu guardo numa caixinha de madeira porque não retém umidade, é espaçosa, e estilosa.  Aliás eu amo caixinhas nesse estilo.

* As penas são muito passíveis de entortar, não as force sobre a folha, pena torta não tem conserto.

*Não guarde-as úmidas ou molhadas, sob o risco de enferrujar e enferrujar as outras que estão com ela.

* O nanquim enferruja a pena, não guarde ela suja e em lugares úmidos. 

* Quando mergulhar a pena no pote de nanquim, mergulhe só até  a abertura da pena e não tudo. Não precisa encostar a ponta no fundo do pote.

* Algumas pessoas preferem lavar os bicos de pena, sem problemas.  Eu não gosto, raspo a tinta já seca com um estilete e passo uma lixa de unhas para um pouco de brilho - elas duram mais assim.

* Quando estiver desenhando e parecer que a pena não segura mais nenhum nanquim, não bata com  a mão porque a tinta vai respingar na folha.

* Prefira potes  de nanquim de vidro e pesados. Potes plásticos são leves e o risco de acidente é maior. O nanquim mancha mesmo.

* A tinta nanquim não vai secar e nem criar crosta  se você a deixar aberta enquanto trabalha. Colocar a tinta que você vai usar num outro pote, ainda mais leve, é perda de tempo.

*Na maioria das vezes ela não sai de móveis, nem de parede, e nem da roupa.

*O nanquim mancha as mãos e as unhas. Particularmente, eu não me importo com isso. Porém, eu sou meio alérgica a produtos nas mãos (Beijo, detergente neutro!), e uma vez tive uma baita complicação de alergia aos pastéis secos.  Em lojas de construção e afins existe um produto para isso, que se chama "Creme protetor para pele Luvex Special" ( não recebi comissão u.u ). É um creme tipo Nivea, que cria uma película na pele e evita problemas futuros para pessoas como eu.

*Quando trabalhar com pincéis, os lave com sabão na mesma hora. O nanquim endurece as cerdas e não sai.

* Uma dica para pincéis para nanquim puro ou aguada de nanquim, são os redondos, com ponta fina e de cerdas macias. 

*Se você vai trabalhar com nanquim e pena, comece na folha de cima pra baixo e da esquerda para a a direita ( no caso dos destros). Leva uns minutos para a tinta secar completamente, evite tocar na folha ou apoiar o braço.  Isso é só uma dica e não uma regra ok? Você começa por onde quiser, mas tenha cuidado pra não manchar a folha.

*Inclusive, o nanquim engana muito. As vezes você pensa que ele esta bem seco e inventa de aplicar uma aquarela por cima... e descobre que ele não estava bem seco e manchou sua arte. Espere o nanquim secar, ou seque com um secador de cabelo.
Por isso, quando eu desenho com aquarela e nanquim, primeiro eu pinto a aquarela e a ultima coisa que eu faço é passar nanquim.


*Fazer um desenho a lápis, passar o nanquim, e depois de bem seco passar uma borracha pra tirar a marca de lápis é uma péssima ideia. A borracha dá uma leve apagada nos traços de bico de pena, tira o brilho, 90% de chance em  rasgar. 

* Não existe "folha ideal" para a técnica, mas dê preferência as que tiverem uma gramatura mais alta.

E por fim, tenha paciência se quiser começar nessa técnica muito antiga. Desenhos com bico de pena são demorados para concluir e pegar o jeito. Eu mesma desenho assim desde 2003 e ainda não cheguei no nível que gostaria, nunca estou satisfeita.

Bem, acho que o textão termina aqui. 
Qualquer dúvida ou sugestão, escrevam!
Saudações, 
Rosali Colares




3 comentários:

Lidiane Dutra disse...

Estou digitando com os pés, porque com as mãos estou aplaudindo esse post MARAVILHOSAUR sobre bicos de pena! A última vez que usei um foi numa aula de Desenho 2, depois da constatação de que meu trabalho ficou parecendo tela de galinheiro, nunca mais trabalhei com pena, só uso caneta descartável que nem de longe é a mesma coisa. Tô adorando ver as tuas séries de barcos, já quero a exposição u.u

Mateus Cena disse...

Aê! Super tutorial Rosali. Parabéns!

Rosali Alves disse...

uahauhua, legal! Pensei que falta mostrar uns exemplos de hachuras e riscados, e também uns desenhos bem velhos que eu tenho pra mostar a evolução da coisa. Já passei por isso de achar que ficou parecendo tela de galinheiro, mas é assim mesmo no inicio. Abraços Lidy e Mateus!